É menino ou menina?

É menino ou menina?

Luciana Benatti – Mamífera  Convidada

Essa é a pergunta que mais tenho ouvido desde que minha atual barriga de 27 semanas começou a aparecer, meses atrás. “Não sei”, costumo responder com um leve sorriso, deixando o interlocutor na dúvida. Para só então desfazer o mistério: “Quero surpresa”. Quando finalmente entendem que eu escolhi não saber, a dúvida dá lugar ao espanto: “E você não fica ansiosa? Eu não aguentaria!”

A vontade, esquisita para os dias de hoje, se manifestou aos poucos, na gestação do meu primeiro filho, Arthur, hoje com 2 anos e 8 meses. Nunca tinha parado para pensar nisso antes. Para mim, era natural saber o sexo pelo ultrassom. Cheguei a perguntar para o obstetra quando poderia fazer o exame. Por sorte, ele achou que não valeria a pena fazer um ultrassom só para isso. Um pouco desapontada, me conformei em esperar o exame de rotina do segundo trimestre.

Nesse meio tempo, numa viagem de trabalho a Recife, ouvi milhões de vezes a pergunta. Quando eu dizia que ainda não sabia, procuravam se certificar: “Mas você vai querer saber, né?” Cansada da ladainha, comecei a pensar seriamente no assunto naquelas noites sozinha num quarto de hotel. E me dei conta de que, ao contrário do que achava, eu tinha escolha. E minha escolha era não saber.

Restava descobrir o que o marido pensava a respeito. Quando o trabalho terminou, ele foi me encontrar e tiramos uns dias de férias. Lembro de ter olhado para ele e perguntado sem rodeios: “Você faz questão de saber o sexo do bebê?” A resposta dele foi tudo o que eu queria ouvir: “Eu não. Prefiro mil vezes que seja surpresa”. E assim fizemos, para o espanto geral da nação.

Foi uma pequena decisão. Nem de longe tão importante quanto outras que tomaríamos nos meses seguintes, como trocar de obstetra no finalzinho da gravidez para ter um parto humanizado. Foi, ao mesmo tempo, uma grande decisão. Que nos fez refletir sobre como, em meio a milhões de tarefas do nosso dia a dia, acabamos vivendo em modo automático. Sem tempo para pensar e fazer escolhas, nos deixamos levar pelo que é mais comum, mais aceito, mais usual ao nosso redor.

De todos os momentos emocionantes que nos permitimos viver no nascimento do  nosso primeiro filho, um dos mais nítidos na minha memória é aquele em que, logo depois de sair de dentro de mim, ele é entregue em meus braços pela médica. Ninguém nos contou, ninguém anunciou. Eu e o Marcelo vimos que era um menino, o nosso Arthur, a melhor surpresa que a vida até hoje nos deu.

Como valeu a pena fazer diferente! Como é gostoso, num tempo em que quase tudo é previsível, escolher NÃO SABER alguma coisa. Poder saborear alguns mistérios da vida, cada um a seu tempo.

Daqui a mais ou menos três meses, nasce nosso segundo filho. Ou filha. Não podemos prever a data exata, não fazemos ideia de suas feições, tampouco temos certeza de qual será o seu nome. Não compramos nada. Se está difícil lidar com tantas incertezas? Juro que não. É que, para nós, nada disso é essencial. O que vale é a oportunidade de vivenciar mais uma vez a chegada de um filho. E de vê-lo crescer, com todas as surpresas, boas e ruins, que a vida nos reservar pelo caminho. Sem perder a capacidade de decidir por nós mesmos, ainda que seja preciso remar contra a maré.

Descobrir o sexo do bebê só na hora do nascimento é a nossa escolha. Que combina com o nosso jeito de viver, que incendeia nossa imaginação, que alimenta nossos sonhos, que nos faz felizes. E você, já parou para pensar no que considera essencial no nascimento dos seus filhos?

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